quinta-feira, 19 de julho de 2012

O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR

quinta-feira, 19 de julho de 2012
[pintura de Vincent van Gogh]

"Que é uma lágrima? A ciência dar-nos-á uma explicação positiva; a poesia dirá que é o soro da alma, a linguagem do coração. Bem pouco avulta essa leve gota de humor que os olhos vertem por alguma causa física ou moral. É nada e é tudo; para os ânimos práticos é um sinal de fraqueza; para os corações sensíveis é um objeto de respeito, uma causa de simpatia." —


[Machado de Assis, história de uma lágrima] 




A minha dor eu sei resolver. Ainda que seja a custo alto, sei resolver. Pode ser com um calmante, um trabalho físico, um desabafo. Pode ser mexendo na horta, organizando as roupas no armário, limpando a casa, xingando Deus; eu sei resolver. Ainda que demore, resolvo. 
O que não sei resolver é a dor do outro. Fico mudo, meu braço sobra, minha mão falta, minha boca treme algum vento sem força. 
A dor do outro não se comunica. Não dá nem tira emprego. 
A dor do outro me isola. Tento uma brecha para falar, mas sinto-me intruso, incômodo, solteiro. Como uma casa em reforma. 
Toda dor só é compreensível no idioma da dor. Quem está de fora não entende, não tem razão, não alcança sentido. A dor não busca conselhos; a dor busca a pele para colocar por cima, busca cicatrizar a ferrugem e a maresia. 
A dor do outro é pedalar com a respiração. Ela me desfalca, me devassa, me faz duvidar de que eu podia ter ouvido. 
A dor do outro é a minha dor mais pessoal, porque é indiferente à minha própria dor. 
A dor do outro é uma parada de ônibus sem ônibus por vir. Uma parada de ônibus para se sentar e não ir. A dor do outro fica no lugar da dor, não suporta um passo além do círculo de sua lembrança fixa. A dor do outro tem a altura de um grito que não é dado para não desperdiçar a dor. 
A dor do outro não ri, porque, séria, chega mais rápido ao seu fim. 
A dor do outro não se empresta, é dor de osso, dor que não se enxerga de dia e nem de noite. [...] 
A minha dor eu resolvo. A dor do outro não sei aonde colocar, onde me colocar. Faço como minha avó Elisa. Quando alguém recusava um abraço, ela pedia para devolvê-lo.
Devolver o abraço é a dor do outro. 


[Fabrício Carpinejar - Pássaros comem na mão, do livro "O Amor Esquece de Começar"]


2 bilhetes:

Adriano César Curado disse...

É nos tombos que aprendemos a levantar e tocar a vida para frente.

Adorei sua postagem.

Beijos.

Gislene disse...

Olá Adriano!

É verdade. E a dor do outro nos ensina muito sobre nós mesmos.

Beijo!

 
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