quinta-feira, 25 de outubro de 2012

FOLHA DE ROSTO

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

É triste encontrar um livro autografado no sebo. O desconsolo de ser recusado pelos pais biológicos. A dedicatória ingênua acreditando na leitura, alheia ao desprezo que lhe será reservada. A data e os nomes evidentes, mal sabendo que um dia seriam revendidos como artigo anônimo. O volume repudiado volta idoso e frágil às livrarias, sem a arrogância de lançamento, aguardando a adoção em nome do preço baixo. 

Ainda mais triste do que encontrar um livro autografado no sebo é encontrar um com a folha de rosto arrancada. Um livro autografado é decente perto de um que teve a letra do autor expulsa como erva daninha. Quem vendeu o livro desejou apagar os vestígios do crime, sair impune, não denunciar seu pouco caso. É desonesto porque recusou se envolver. Agrediu a encadernação para não sujar as mãos. Desequilibrou a lombada para preservar a identidade. Tem ciência que agiu com desdém e não se preocupa. Deduz que um pecado escondido não é pecado, que se ninguém viu não existe. 

O casamento é a folha de rosto, pode-se dizer que é um preciosismo, mas não é. Quando se quebra a confiança de um casal, seja por uma mentira, seja por uma traição, é penoso restabelecê-la. Requer generosa compreensão. A folha de rosto não muda uma linha do conteúdo do texto, só que altera o jeito de ler a obra. Apesar da criação estar lá intacta, a numeração não ter pulado, a ordem dos parágrafos permanecer idêntica, algo foi cortado com grosseria e precipitação, algo foi cortado e logo o que justificava o início do relacionamento. A integridade fora destruída e invadida. 

Ao tirar a folha de rosto, sacrifica-se o território da intimidade. De igual modo, a infidelidade sacrifica o desejo da perfeição que acalenta o par. Abala-se a confiança mútua, a ingenuidade de que nenhum dos dois vai estragar a relação, de que um irá cuidar do outro. Todo livro é feito para um único leitor de cada vez. Sem a folha de rosto, findam-se a cumplicidade e a reserva do livro fechado. O segredo se transforma em fofoca; a reputação, em suspeita. 

Uma vez descolada a folha inicial, a página seguinte guardará a marca da letra, o peso da caneta. Com carvão, se é capaz de decifrar o que foi escrito. O casamento deixará de ser todas as páginas com versos ou narrativa apaixonantes para se converter na fatídica página que foi embora. O erro é mais vaidoso do que as virtudes e questionará inclusive os acertos passados. 

Terrível é recuperar a fé, quando a esposa ou o marido, a namorada ou o namorado anulou a pessoalidade e negou a fidelidade das palavras. 

Preserve a folha de rosto. Ela faz diferença quando desaparece. 


[Fabrício Carpinejar, crônica do livro Canalha!, editora Bertrand Brasil]

1 bilhetes:

Maria Inês disse...

É definitivamente uma das escritas que eu mais gosto, e por isso não poderia deixar de TE SEGUIR!!

Gostava muito que retribuísse o favor! ;)

escrevendoquandochove.blogspot.com

beijoo <3

 
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